Livro: Encontros e Desencontros
Richard Simonetti
Richard Simonetti
Onésio não saberia definir exatamente o que acontecera com
Dirce, sua esposa. Não era nenhum modelo de virtude. Possuía seus defeitos,
como todo ser humano, mas sempre viveram relativamente bem, juntamente com os
três filhos, até a transformação.
Começara devagarinho, com crises nervosas e impulsos
agressivos,convertendo-se numa pessoa irritadiça, a tumultuar o lar. Ele era o
mais visado. Dirce o assediava com exigências descabidas, criticava-o se não
atendia prontamente seus caprichos, acusava-o de abandono quando, por força de
suas obrigações profissionais, passava alguns dias viajando.
A situação piorara muito com sua conversão ao espiritismo. Alma
sensível, sedenta de conhecimento superior, encontrara na Doutrina um manancial
abençoado que iluminava o cérebro e aquecia o coração.
Contudo, a esposa passou a hostilizá-lo ainda mais. Se a
convidava à oração era recebido com ironia; se calava-se ante sua intemperança
verbal era taxado de indelicado e orgulhoso; se intentava esclarecê-la sobre
princípios espíritas chamava-o de alucinado. Possuída por injustificável
aversão, iniciou uma guerra de nervos para afastá-lo do espiritismo. Se o
marido chegava em casa mais tarde, informava:
- O jantar já foi servido. Você pode jejuar. Faz bem ao
espírito, que tanto o preocupa.
Deixou de cuidar de suas roupas.
- Espírita não precisa andar bem vestido.
Buscava envolvê-lo em conflitos com os filhos.
- Seu pai não liga para nós. Ou está viajando ou enfiado naquele
maldito Centro Espírita.
Amigos ponderavam que Onésio devia agir com firmeza, exigindo o
respeito de que era credor.
Ele, porém, estava acima de reações puramente humanas,
consciente de que qualquer violência de sua parte acentuaria o abismo aberto
entre ele e a esposa, culminando com o aniquilamento do lar.
Dirce era muito mais necessitada da ajuda do que de
admoestações.
Percebia em seu olhar profunda amargura. Adivinhava
incontroláveis tormentas em seu universo interior. E quanto maiores eram suas
impertinências, mais se compadecia, rogando a Deus que a socorresse.
Em seu favor havia as viagens. Visitava várias cidades. Embora
preocupado com a esposa, saudoso dos filhos, podia, então, fazer o que tanto o
gratificava: participar livremente do movimento espírita.
Era estimado pelos confrades em face da facilidade de expressão
em seus comentários em torno da Doutrina e, sobretudo, pelos generosos dotes de
coração, sempre pronto a participar de iniciativas no campo da Fraternidade Humana.
Para muitos Onésio era um infeliz, submetido à tirania da
esposa. Na verdade era apenas alguém compenetrado de seus deveres, que não se
limitava a carregar a cruz doméstica com serenidade, achando tempo e ânimo
suficientes para estender elos de simpatia e amizade ao redor de seus passos.
Certa vez, numa das cidades que visitava, compareceu a reduzido
grupo mediúnico, especializado em tarefas de desobsessão. Dirigindo-se a
Onésio, pelo psicografia mediúnica, um mentor espiritual explicou: - Meu irmão,
há muitos anos quatro espíritos, inimigos seus, desejosos de se vingarem de
passadas ofensas, intentam precipitá-lo no desajuste.
Incapazes de atingi-lo diretamente em face do equilíbrio que o
caracteriza, utilizam sua esposa como instrumento, envolvendo-a em violento
processo obsessivo, a se aproveitarem de suas tendências à neurastenia.
O viajante ouvia surpreso a informação. Ninguém ali sabia de
seus problemas domésticos, o que conferia autenticidade à informação.
Há muito suspeitava que sua esposa estava envolvida em cruel
obsessão, mas nem de leve imaginaria que fosse o alvo dos obsessores.
- Todavia - prosseguiu o manifestante - o seu comportamento
disciplinado os confundia. Quanto maiores as atribulações a que o submetiam,
mais você se ligava a Deus, cultivando a compreensão, sempre pronto a encontrar
na oração forças para enfrentar as tempestades no lar. Sua humildade, aliada à
irresistível vocação para o Bem, muito mais do que qualquer exortação, abalaram
profundamente as disposições dos inimigos desencarnados, que aqui estão para o
acerto final.
Emocionado, Onésio se dirigiu às entidades: - Meus irmãos,
reconheço que bem grande terá sido o mal que lhes causei no passado para que os
animassem propósitos de vingança. Aparente vítima de hoje, ontem fui o verdugo.
Contudo, após muito sofrer, aprendi que responder ao mal com o mal é
perpetuá-lo, e todos sabemos sentir um dia que o revide pode satisfazer os
sentimentos humanos, mas contraria nossa condição de filhos de Deus. Por isso,
os vingadores serão sempre amargos e infelizes.
Venho, pois, convidá-los à reconciliação, em nome de Jesus. Se
muito mal lhes causei, peço-lhes que me perdoem. Trabalharei intensamente por
repará-lo.
Incapaz de prosseguir, Onésio chorava copiosamente, enquanto o
mentor concluía: - Suas lágrimas unem-se às de nossos irmãos. Eles prometem que
não voltarão a perturbar seu lar e que buscarão novos caminhos, inspirados em
seus exemplos...
Dois dias depois Dirce recebia o marido com um brilho diferente
no olhar:
- Onésio, meu querido! Que saudades!
Ele contemplou embevecido e feliz a esposa, desfrutando de uma
acolhida de que há muito se desacostumara..
Dirce regozijava-se com o amor pelo marido que renascia em
plenitude, sem saber explicar a metamorfose que se operara em seu mundo íntimo,
como se saísse de densa escuridão para abençoada luz.
Mas Onésio, sabia, dizendo em pensamento:
- Obrigado, meu Deus! Muito obrigado!
Ficaríamos espantados se pudéssemos identificar como é freqüente
o assédio de Espíritos que nos perseguem, atendendo a motivações variadas.
Semelhante realidade, que a fantasia teológica situa como
presença demoníaca, não será passível de nos desajustar, desde que nos
disponhamos a cultivar as virtudes cristãs, com o que não apenas anularemos a
influência daqueles que desejam nos induzir ao mal, mas, sobretudo, os
conduziremos irresistivelmente ao Bem.
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